domingo, 6 de janeiro de 2013

A MANGA E OS MARIMBONDOS


No internato,  as opções de diversão eram restritas às oportunidades que o próprio colégio pudesse oferecer. Duas vezes ao ano, eram-nos proporcionados passeios fora da cidade, de preferência em fazendas onde a meninada pudesse curtir à vontade, sem grandes preocupações para as irmãs. Essas “preocupações” giravam em torno da presença masculina que pudesse despertar em alguma moçoila um olhar menos inocente, uma intenção um pouco mais avançada. (Sobre esse assunto, em outra ocasião relatarei um fato interessante). Esses passeios eram programados com antecedência porque nem sempre havia quem se dispusesse a oferecer refeição para um bando de esfomeadas. É bom lembrar que qualquer comida diferente da que era servida no colégio, aguçava o carente paladar da criançada... Qual não seria então a reação provocada por uma comidinha da roça? Bem, enquanto o almoço ficava pronto, podíamos passear pelos lugares permitidos, andar a cavalo, brincar na água se houvesse oportunidade, subir em árvores e comer as frutas apanhadas no pé, que delícia!...
Quase todas as internas tinham o pezinho na roça, éramos filhas de fazendeiros, sabíamos de tudo sobre a vida na fazenda! Mas, havia algumas bem urbanas que não tinham o menor traquejo com a vida rural. Monjolo era cavalo de pau e cabaça, abóbora de madeira... Não preciso dizer o quanto eram criticadas pelo “mico”! Nós as ruralistas estávamos em nosso ambiente... éramos desenvoltas, conhecíamos tudo naquele ambiente!
Em um desses passeios o pomar era lindo, muitas árvores  frutíferas, laranjeiras, mangueiras, pés de jaboticabas, de abacates, bananas, abacaxis e outras... entre as fruteiras a que mais me chamou a atenção, foi a mangueira que estava com as frutas ainda verdes, iniciando o processo de amadurecimento. Despertou-me a atenção particularmente uma manga lá no alto, linda, rosada... Não tive dúvida, em dois tempos eu estava lá em cima! Ao meu alcance a coisa mais cobiçada naquele momento. Faltava apenas um impulso para alcança-la,  ali a dois palmos da minha mão...Foi quando impulsionando o corpo com o pé num galho mais alto... era tudo o que faltava para alcança-la... e... isso foi também tudo para ser  maior carão que passei em   minha vida! Bati com a cabeça numa caixa de marimbondos! Podem imaginar o que aconteceu? A bicharada se viu atacada e voltou-se em perseguição ao agressor, no caso, eu. Não sei como, mas cheguei lá em baixo. Da metade da árvore  escorreguei, da outra metade, caí! Esparramei-me no chão, coberta de marimbondos! Atacaram-me por todo corpo, principalmente na cabeça e no rosto. Quem pode avaliar o que é ser picado por centenas de ferrões desse agressivo inseto? Tudo bem, eu invadi o espaço deles, mas precisava uma resposta tão hostil???
O resultado  do fato foi uma tragicomédia. Comecei a inchar. O edema cobriu-me todo o rosto. O estojo de  primeiros socorros das irmãs, se é que tinha algum,não estava preparado para tal incidente. Vieram lá com um tal de azul de mitileno, como próprio nome diz, um líquido azul anil que passaram em todas as picadas, isto é, em todas as partes descobertas ou mal cobertas. Imaginem a situação. As pálpebras, os lábios, as orelhas, o nariz, o pescoço... inchados e azuis, parecendo uma assombração. As colegas, nem preciso dizer, quase tiveram um ataque de tanto riso!
 Entretanto, eu garanto, o vexame  não foi pior que a dor sofrida!  

3 comentários:

Mírian Cintra disse...

Pode perdoar quem riu?

Eurico Gomes disse...

Bom seu conto, só não é bom as ferroadas de marimbondo. Já aconteceu isso comigo também, e não foi só uma vez. Depois é caso pra rir, mas na hora é a pior coisa que existe! rsrs

Kátia Kappel disse...

Ô minha querida!....Que delícia de conto!!!!