quinta-feira, 13 de setembro de 2012

UM FINAL FELIZ (VI)


Imaginem o que é permanecer 15 dias deitada em cama de hospital com um dreno vazando o tempo todo, sem poder tomar banho completo... comendo uma gororoba sem sabor... com necessidade de me movimentar, correr, brincar... Comer um franguinho ao molho, feito no fogão caipira, com arroz e farinha. Ah! Que delícia! Era a minha preferência naquela época!
Na verdade, tinha saudade de tudo, da fazenda, das colegas, até do colégio! Meu consolo era  a presença paciente e acolhedora de Mamãe, dividindo comigo, é claro, aquela situação desgastante.
Quando recebi alta, surgiu novamente a indecisão e a discussão sobre voltar ou não para a fazenda. O bom senso determinou que eu ficasse em F onde eu teria a assistência médica e um tratamento adequado. Voltaria então para o colégio, para minha contrariedade. Naquele momento não me importava de perder o ano letivo, pois me sentia frágil, indefesa, sozinha!
A recomendação era para que eu ficasse em repouso absoluto, o máximo de tempo possível deitada do lado direito para que a secreção pudesse escorrer livremente até que terminasse todo aquele processo infeccioso.
Acomodaram-me na enfermaria no piso térreo do colégio onde eu ouvia a movimentação das meninas, a algazarra na  hora do recreio e recebia as visitas clandestinas das colegas.Não havia razão para a clandestinagem se não fosse proibido! Estávamos sempre prontas para burlar o regulamento, eram tantas as regras que para segui-las chegaríamos próximo à santidade. Esse foi o agravante para que me transferissem  para o dormitório.Trancado o dia todo,eu só podia ver  minhas colegas à noite quando iam dormir.Eu só recebia a visita de algumas colegas para me passarem o conteúdo das aulas. Não sei por que fui colocada sob esse regime... não estava com nenhuma doença contagiosa... Imaginem como eram longos os dias... e as noites...Dormia muito durante o dia e à noite ficava insone olhando o balançar das árvores na janela.
Hoje tenho as respostas para a minha submissão a essa disciplina. Era cultural e natural obedecer. Obedeciam-se  aos pais, aos irmãos mais velhos em casa, aos professores, às convenções sociais, ao marido e por último aos filhos... Nunca se rebelar, nem se posicionar contra essa ou aquela ordem. Assim me sujeitei passar meses naquela situação.
Recebia a visita do medico regularmente  até quando ele tirou o dreno. A ferida foi cicatrizando ao  comando da própria natureza.
Há males que vêm para o bem. Nesse tempo fiquei conhecendo umas primas de papai que moravam em frente ao colégio. Eram, a mãe já bem idosa e três filhas solteiras já  quarentonas. Pessoas maravilhosas, uma mais carinhosa que a outra,  se prontificaram a me abastecer de frutas e  guloseimas. Todos os dias me mandavam uma copada de vitamina. Eu ficava ansiosa  para chegar a hora em que tomaria a deliciosa batida de frutas com leite.   
Até que enfim a ferida cicatrizou completamente e pude sair do “castigo” e  frequentar as aulas. Fui dispensada da  missa todas as manhãs e do terço à noite, para inveja das colegas. Meu horário era diferenciado, deitava cedo, e levantava mais tarde. Tinha sempre alguém para me acompanhar no banho e uma das normalistas para me ajudar com os deveres de casa. Na verdade, estava me sentindo bem paparicada!
Este  drama vivido por mim na minha infância me ensinou a valorizar as pessoas, a ver a família com os olhos do coração quando ela sofria comigo as minhas dores; pequenas coisas, que  entre a abundância em um momento e a carência no outro, me fizeram refletir e avaliar o quanto eu estava sendo amparada e protegida nos dois planos da vida. Para que eu sobrevivesse, uma verdadeira batalha foi travada, com um final feliz para todos, graças a Deus!

2 comentários:

Anônimo disse...

OOOOOO Dodoi! As primas quebraram um galho heim? bjin. Fiote

Ti'Ada disse...

É verdade! quebraram um galhão!