segunda-feira, 29 de outubro de 2012

AS EXTRAVAGÂNCIAS DA MADRE SUPERIORA


O Colégio atendia alunas em regime de internato semi-internato e externato desde os primeiros anos de vida escolar, isto é, alfabetização até o ensino médio, ou seja, o Curso Normal (Magistério) que era o estágio máximo de estudos que a maioria  das mulheres conseguia chegar.

Era muito precário o sistema de ensino; as cidadezinhas tinham cada qual o seu Grupo Escolar onde os alunos encerravam suas carreiras na 4ª serie. Raros, os que tinham melhores condições financeiras e que podiam arcar com as despesas das mensalidades no internato,  avançavam nos estudos. Para isso existiam colégios de cidades maiores, geralmente dirigidos por religiosos, homens e mulheres empenhados em educar a juventude,  que se congregavam sob um regulamento próprio. Cada congregação fazia seu currículo de acordo com as próprias conveniências. Até os livros adotados tinham a procedência de editoras próprias que suprimiam fatos históricos relevantes, mas que depreciavam sobremaneira a imagem da estrutura fundamental a Igreja Católica.

Havia colégios liberais, convencionais e rigorosos. Aos poucos  essas instituições  foram se modernizando,  não conseguindo  se manter, tiveram que se adequar. O fato é que os antigos internatos se transformaram abrindo espaços para outras atividades educacionais mais abertas, mas ainda carregadas de preconceitos e sectarismos.

O colégio  onde cursei as primeiras séries  era dirigido por um grupo de irmãs religiosas cada qual com sua função específica. A Madre Superiora cuidava da parte administrativa e a Madre  Diretora ocupava-se dos assuntos pertinentes ao ensino. Esta era famosa pelos seus gritos! Se  algo  fugisse aos preceitos disciplinares, de onde ela estivesse mandava um berro que provocava um sobressalto geral. Todo mundo morria de medo da tal irmã. A outra, a superiora, essa superava em extravagância. Quando cismava queria corrigir da maneira mais inusitada o que achava errado. 

Certa tarde, depois do recreio, a Irmã responsável tocou a campainha  chamando para  sala de estudos. Era o momento de preparar para a aula no dia seguinte. A irmã badalava a campainha e ninguém ia para a fila. Bateu uma, duas, três e nada... parecia que todas as internas  estavam surdas ... aí apareceu  na sacada a Madre Superiora. Quando percebemos que vinha bronca, tratamos de ir para a fila, quietinhas! Mas não adiantou... Daí a alguns  minutinhos aparece  a Madre com força total agitando a sineta, que devia pesar umas 300 gramas de puro bronze. Agitava com a mão esquerda, cansava , passava para a direita, foi revezando até cansar por uns dez minutos. Depois mandou-nos subir para a sala. Até aí, tudo bem, nada de falatórios nem sermões. Entramos na sala. Era costume  ao chegarmos na própria carteira, devíamos esperar até que a última entrasse  para fazermos a oração de pé. Depois então é que poderíamos assentar ou sair para outras atividades. Surpresas, achamos que estava tudo normal... não teve bronca... Foi quando ela pegou a campainha e a entregou para jovem que estava saindo para a aula de piano.

_ Toque! Disse ela. A moça sem entender pegou a sineta.
_ Toque, não sabe como se toca uma campainha? A moça agitou a sineta e a um gesto da madre passou para outra. Estávamos de castigo tocando sineta a tarde toda até a ultima garota da sala. Um detalhe: quem fizesse cara de riso ou crítica, tinha o castigo dobrado...

 As atitudes tresloucadas dessas irmãs que ocupavam lugar de destaque na direção do colégio  eram uma nota espetacular, motivo para comentários que rapidamente sairiam muros a fora.

Há pessoas a quem não importa o papel ridículo que representa diante do estrelismo de um momento.

2 comentários:

Fernando Smith disse...

Interessante seu relato, você escreve bem tem um estilo que empolga, consegue fazer a gente visualizar as cenas e viajar no seu conto, parabéns

Kátia Kappel disse...

Faço minhas as palavras do Fernando!...