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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

REQUEIJÃO COM GOIABADA




Este blog destina-se a contar minhas lembranças de um passado distante, década de 1950, quando as famílias que quisessem educar seus filhos, teriam que envia-los para o internato, pois não havia escolas que fossem além das quatro séries iniciais em muitas cidades do interior. Esse era o tempo máximo de estudo para muitos que não tinham condições de enviar seus filhos para casa de algum parente na cidade, ou para o internato, como meus irmãos e eu frequentamos.

Já  fiz vários relatos de como era nossa vida no internato. É bom  que se diga que não era fácil! Viver longe da família, obedecer a regras rígidas... a convivência com outras meninas cada qual com sua personalidade, sua educação de berço... Era um exercício de acomodação ou adaptação em que se aprendiam na convivência, muitas vezes, quebrando a cara... Literalmente! Havia uma coleguinha que volta e meia metia uma tapa na cara de alguém. Não raro, no recreio, havia uma apartação de briga.

Algumas colegas tinham o péssimo hábito de furtar objetos alheios. Outras egoístas, não emprestavam nada e muito menos repartiam suas merendas.
As merendas que levávamos de casa ou que recebíamos das visitas, guardávamos em uma dispensa comum a todas as internas em uma espécie de baú individual, alguns com chave. Após as refeições, quem quisesse e tivesse algo ali guardado, poderia se servir e convidar as amiguinhas para compartilhar. Como tinha gente interesseira... Bastava saber que alguém tinha sido chamada ao parlatório (sala onde recebíamos visitas), e isso era um sinal de que a fulana seria presenteada com guloseimas, para as “amigas” se alegrarem! O motivo nem era pela visita que a colega estava recebendo e sim pelos doces que ela ofereceria...  Nessa hora era tanto  abraço, tanto beijo, tantos votos de amizade, bilhetinhos... Puro interesse!

Havia uma colega que recebia doces quase toda semana. Por mais que fosse adulada, ela só chamava para o “quartinho”, ou seja, a tal dispensa, quem ela bem entendesse. Sabíamos que ela tinha recebido goiabada  e requeijão e que nós, eu e Margarida, não estávamos na lista de suas convidadas. Pedir? Muito humilhante! Que fazer então para saborear aquela deliciosa goiabada acompanhada de um maravilhoso requeijão mineiro, daqueles feitos em casa no fogão a lenha! Estudamos os meios e fomos direto ao propósito.

A dona dos doces era intransigente, mas, não era esperta, ou melhor, era ingênua, deixava aberta sua caixinha com toda preciosidade dentro dela! Estava fácil! Sem problema! Mas... havia um sim! Como tirar um pedaço sem que ela percebesse e passasse a trancar a caixa? Bolamos então uma estratégia. A caixeta de madeira onde estava contida a  goiabada caseira tinha uma tampa que corria dentro de canaletas laterais da caixa. Ao puxar a tampa a caixa se abria só o necessário. Daí veio a ideia: se puxarmos a tampa toda, e começarmos a retirada do doce a partir da outra extremidade, ela vai demorar para perceber! Bem, quando a garota percebeu...
Foi assim que a famosa goiabada teve um final feliz!

terça-feira, 5 de junho de 2012

OS ARREDORES DA CASA FAZENDA


Percorrendo as minhas lembranças na década de 1950 e alguns anos anteriores, vamos encontrar a motivação que me levou a escrever os retalhos de minhas memórias. Situações inusitadas para os mais jovens  urbanos e provavelmente motivo de saudade para os contemporâneos rurais.
Do alpendre da casa da fazenda podiam-se ver os currais, alguns pastos como o piquete, parte da invernada e uma pequena área cercada onde era plantado um mandiocal, aboboreiras, cana de açúcar e batata doce, e outros. Ah! Havia também nesse mesmo conjunto, um pé de eucalipto bem no canto da lavourinha, lindo, enorme, que balançava, balançava ao vento...   
Logo acima, uma pequena plantação  de café que se estendia até  o terreiro e a tulha. O terreiro era um espaço de terra batida,  onde o café era despejado  para começar o processo de secagem. A armazenagem do produto era feita na tulha, à granel. A produção só era ensacada, quando fosse comercializada. Eu adorava ver a movimentação. Ensacar, pesar, costurar a saca, empilhar... gostava também de subir nos volumes empilhados, quando papai não estava por perto, é claro!  
Nos fundos da casa, rodeando o quintal, havia outras divisões de pasto, todas com seus respectivos nomes, mangueiro  e pastinho, onde eram soltos os animais da lida diária, os cavalos e éguas de serviço.
Alguns degraus separavam a casa do curralzinho que ficava bem debaixo de algumas janelas inclusive uma do quarto dos meus pais, de onde se viam toda a movimentação da lida com o gado. Os currais em número de dois, eram cercados de tábuas interligados por porteiras. Adiante, após o primeiro curral ficava o barracão que o papai chamava de casa, onde os bezerros passavam a noite separados de suas mães. Ao lado do barracão, uma varanda onde se guardavam as tralhas mais pesadas da fazenda, inclusive o carro de bois.
Todas as tardes impreterivelmente, as vacas paridas, ou seja, as que ainda estavam amamentando, eram recolhidas junto com os bezerrinhos em um dos currais onde era feita a apartação, a separação das vacas de suas crias. Esse procedimento era para que a vaca pudesse reservar o leite produzido durante a noite, para que no dia seguinte, bem cedo, fosse ordenhada, ou seja, extraído o leite que por direito pertencia ao bezerrinho. Este, coitadinho, ficava preso no curral, berrando... berrando, sentindo falta da mãe ou com fome mesmo, quem sabe? A vaca, do lado de fora, em pleno exercício do instinto maternal, mugindo, como que externando indignada a ausência do filhote.
Bem, o leite usurpado da vaca virava queijo, manteiga, doce, requeijão da melhor qualidade, consumido pela família ou vendido na cidade. Essa era uma tarefa que mamãe sozinha exercia muito bem, não só porque a produção era pequena, mas principalmente porque era muito caprichosa, sempre com muito cuidado e higiene, dentro dos padrões da época. Nem por isso deixavam de ser deliciosos e muito procurados!
O queijo, trabalhado artesanalmente, o tipo meia cura, era amarelo e liso por fora, sem imperfeições, clarinho no interior, macio e delicioso! Ao corte, podia-se ver a manteiga escondida nas pequenas cavas.
Durante o processo de manufatura, havia um momento ímpar para as crianças, eu adorava! A massa, isto é, a qualhada era colocada nas fôrmas, espremida, “espinicada,” em seguida, mais massa e repete o processo de espremer para dar liga e o queijo ficar uniforme. No momento em que a qualhada era “espinicada” e espremida, o soro saia carregado de pequenas partículas de massa. Era um soro esbranquiçado e mais espesso que aparávamos em nossas canequinhas! Era um alimento rico e muito saboroso, um momento que esperávamos com ansiedade!
Em tempos de temperatura mais elevada, às vezes, o queijo fresco ainda na fôrma ou aquele de um dia, sofria alteração e aumentava de volume. Embora contrariada, mamãe tratava de consertar o dano.      
Este queijo inchado era transformado em queijo cozido tipo mussarela. O manuseio é simples: fatiar o queijo numa vasilha com água bem quente para cozinhar; quando a massa estiver no ponto de modelar, pega-se uma porção, trabalha-a bastante com as mãos para eliminar o excesso de água e começa a dar a forma desejada. Mamãe dava o formato de cabacinha. Quando os queijos inchavam... a saída pra aproveitar, era ter mais trabalho. Eu então adorava! Aquele queijinho de cabacinha era uma delicia!  Divertido era comê-lo desfolhado até o final!
Hoje aos 70 anos, enquanto exercito minha memória buscando os fatos vividos enquanto criança, recordo com saudade a vida saudável, despreocupada, tranqüila, tanto que chegava a ser monótona, porem feliz!